Por anos, "usar open source" no design e na edição de PDFs era eufemismo para "aceitar menos". Funcionalidades pela metade, curva de aprendizado íngreme e o eterno disclaimer de que "para trabalho sério" você precisava do Figma ou do Adobe Acrobat. Em 2026, essa conversa mudou de assunto.

Dois projetos que estão entre os mais comentados do GitHub Trending nesta semana — Penpot (52 mil estrelas) e Stirling-PDF (82 mil estrelas, o #1 PDF no GitHub) — deixaram de ser curiosidades de DevOps com tempo livre e viraram infraestrutura real de trabalho. Os números dizem o suficiente: 500 mil usuários ativos no Penpot, 18 milhões de downloads do Stirling-PDF, e uma fatia que ninguém esperava — 72% das empresas da Fortune 500 já usam o Stirling-PDF.

O gatilho: quando o SaaS ficou caro demais

A história não começa no open source — começa nas planilhas de assinatura. Nos últimos dois anos, o Figma aumentou o preço do plano Professional em 33%, de US$ 15 para US$ 20 por assento por mês, e ainda forçou o bundling de FigJam e Slides no pacote. Para times grandes, a conta passou a incomodar de verdade. Contratos com cláusulas de reajuste anual automático tornam a projeção de custo ainda pior.

O Adobe, do lado dos PDFs, mantém sua política de assinaturas anuais que não param de subir. O Acrobat Pro gira em torno de US$ 240 por usuário por ano — e para equipes com dezenas de funcionários que precisam assinar, preencher e converter documentos no dia a dia, essa conta multiplica rápido.

Some a isso as novas regulações de privacidade de dados — LGPD no Brasil, GDPR na Europa — que fizeram equipes jurídicas questionarem o envio automático de documentos sensíveis para servidores de terceiros. Um contrato que passa pelo Acrobat online vai para a infraestrutura da Adobe. Com Stirling-PDF auto-hospedado, ele fica dentro da sua própria rede. Esse argumento de soberania de dados foi o que abriu muitas portas em setores regulados.

Penpot: design de verdade sem pagar por assento

O Penpot é desenvolvido pela empresa espanhola Kaleidos com uma filosofia incomum para o mercado de SaaS: toda a plataforma é open source, inclusive a versão em nuvem. Não existe plano "gratuito com funcionalidades travadas" — você tem acesso completo ou faz self-host no seu servidor.

A diferença técnica que o separa de alternativas mais antigas é a escolha de formatos: o Penpot representa designs em SVG, CSS e HTML nativos, não em formato proprietário. Isso significa que um desenvolvedor consegue inspecionar e reutilizar tokens de design sem depender de um plugin intermediário — algo que times de frontend valorizam bastante.

Um estúdio de 8 designers em Pune, na Índia, migrou completamente do Figma há seis meses. Segundo relato na comunidade Penpot, eles entregam projetos de banking apps, dashboards fintech e e-commerce com o mesmo fluxo de antes — componentes, variantes, prototipagem, comentários. A conclusão: para 90% do trabalho do dia a dia, o Penpot está pronto. O que ainda falta são alguns plugins avançados que existem no ecossistema Figma.

Para facilitar a migração, a agência Runroom colaborou com o Penpot em um plugin que exporta projetos do Figma diretamente para o Penpot, preservando layouts e camadas. Milhares de designers usam essa rota de entrada — e o número de contribuidores externos no repositório (284 até agora) mostra que a comunidade está construindo o que ainda falta.

Stirling-PDF: 53 mil empresas, incluindo as maiores do mundo

O Stirling-PDF chegou num nicho que parecia invencível: edição de PDF offline, sem nuvem, sem assinatura, sem enviar arquivos para servidor externo. São mais de 50 ferramentas integradas — merge, split, compressão, OCR, assinatura digital, redação, conversão de formato — rodando inteiramente no seu servidor ou na sua máquina.

A versão 2.0, lançada no fim de 2025 e refinada até a v2.9.2 em abril de 2026, trouxe apps desktop nativos para Windows, macOS e Linux, edição de texto em PDFs (ainda em alfa) e arquitetura híbrida que permite frontend local acessando backend corporativo. O resultado em dois anos de existência: 18 milhões de downloads e uso confirmado em 53 mil empresas, incluindo 72% da Fortune 500.

O modelo de licença é direto: gratuito para até 5 usuários, US$ 99/mês ou US$ 1.000/ano para uso empresarial com assentos ilimitados. Comparado ao Adobe Acrobat, a conta fecha rapidamente para qualquer time médio — e sem o risco de reajuste surpresa.

O que ainda segura a migração completa

Seria desonesto dizer que a troca é perfeita em todos os cenários. O ecossistema de plugins do Figma ainda não tem rival — há centenas de integrações específicas (sistemas de design, handoff automatizado, bibliotecas de assets corporativos) que não existem no Penpot. Para times que dependem desses workflows, a migração exige mais planejamento.

No lado do Stirling-PDF, a edição de texto em PDFs ainda está em estágio alfa, com limitações práticas. Para fluxos pesados de criação de documentos a partir do zero, o Acrobat Pro ainda leva vantagem técnica em alguns casos.

Mas esse é um benchmark que muda todo trimestre. A velocidade de desenvolvimento dos dois projetos — impulsionada por comunidades grandes e, no caso do Penpot, por uma empresa com modelo de negócio sustentável — é visivelmente maior do que há dois anos.

A virada que já aconteceu

A mudança mais significativa não é técnica: é de percepção. Quando 72% da Fortune 500 adota uma ferramenta open source em vez da opção paga de referência no mercado, o argumento de que "empresa séria não usa open source para isso" simplesmente cai.

O Penpot e o Stirling-PDF chegaram a um ponto em que a pergunta deixou de ser "quando vão estar prontos?" e virou "por que você ainda está pagando?". Para a maioria dos casos de uso, a resposta honesta é: inércia, integração com ferramentas existentes, ou funcionalidades muito específicas. Razões legítimas — mas nenhuma delas é "o open source não é bom o suficiente".